sábado, 27 de dezembro de 2008

Catequese e Liturgia – Domingo dentro da Oitava de Natal / Oitava de Natal (dia 30/12)




*A liturgia da Oitava de Natal é substituída pela do Domingo dentro da Oitava do Natal quando o Natal cair ao Domingo, ou quando o Domingo dentro da Oitava cair nos dias 26, 27, 28 ou 30 de dezembro (cf. Missal Romano Tradicional)*


Evangelho do dia: Lc 2, 33-40
“Uma espada transpassará a tua própria alma (Lc 2, 35)”

O Evangelho de hoje fala da apresentação de Jesus no templo para receber a circuncisão, conforme prescrevia a Lei de Moisés. De acordo com a explicação do 4º domingo do Advento sobre os Sacramentos (conforme artigo no blog:
http://ascese-noturna.blogspot.com/2008/12/catequese-e-liturgia-quarto-domingo-do.html. Postado em 21/12/2008 às 17:11hs) – em especial sobre o Batismo –, vimos que a circuncisão era apenas uma figura do Sacramento do Batismo da Nova Aliança, cujo efeitos deste último é a santificação da alma. No entanto, durante a vida, Nosso Senhor passará por diversas provações, na qual atesta o profeta Simeão: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua própria alma (Lc 2, 34-35)”.
Com esta lição aprendemos que apesar da vinda do Verbo de Deus a esta terra e fazer-se homem, manifestando a nós a plena alegria daquele que veio para salvar a todos, percebemos que desde o instante de seu nascimento na pobre gruta de Belém, em plena noite fria, rodeada por dois animais (o Boi e o Burro), estava previsto o quanto Jesus sofreria desde o instante de seu nascimento. Com isso, a catequese de hoje exporá os efeitos do Sacramento do Batismo, que apesar de limpa-nos da mancha de todo o pecado seja o original, seja o atual, não nos tira as conseqüências deste mesmo, que é a chama da concupiscência, como também as provações que passaremos nesta vida e o por quê que Deus não nos livra dos males da vida.

Efeitos do Batismo:
O Sacramento do Batismo, também conhecido como o Sacramento da regeneração, tem como efeito a isenção dos males, onde somos plenamente remidos do pecado original, na qual toda a natureza humana está manchada e sujeita a seus efeitos, como também do pecado atual que cometemos deliberadamente (Cat. Rom, p. II, c. II, §41-48). Também este Sacramento tem como efeito a Dotação de bens, onde recebemos a Graça santificante, as virtudes infusas (as sobrenaturais ou teologais: Fé, Esperança e Caridade), inserção no Corpo de Cristo e impressão do caráter batismal que jamais se apagará da nossa alma, mesmo se cairmos no mais grave dos pecados (Cat. Rom, p. II, c. II, §49-52).
Contudo, o Sacramento do Batismo não tira a concupiscência ou aguilhão do pecado.
A concupiscência não é pecado no rigor da palavra, mas que procede do pecado e ao pecado inclina. Santo Agostinho também dizia: “a culpa {resultante} da concupiscência, para as exercer na luta (August. De peccat. Merit. et remiss. 2, 4)”; “No Batismo, destrói-se a culpa {provinda} da concupiscência, mas persiste a fragilidade (August. Retract. 1, 15, 2)”. O Concílio tridentino, ao anatematizar o protestantismo, define a concupiscência: “Esta concupiscência que alguma vez o Apóstolo chama pecado (cf. Rm 6, 12), declara o Santo Concílio que a Igreja Católica nunca entendeu como pecado porque seja verdadeira e propriamente pecado nos renascidos, senão porque procede do pecado e ao pecado inclina (Denzinger. Enchiridion Symbolorum, n. 792. Concílio Tridentino, Sessão V)”. Assim conclui o Catecismo: “Com efeito, a concupiscência vem do pecado, mas em si não é outra coisa senão um apetite da alma que, por sua natureza, repugna à razão. Porém seus movimentos não envolvem nenhuma malícia de pecado, contanto que a vontade não consinta neles, nem se deixe arrastar por qualquer negligência (Cat. Rom., p. II, c. II, §42)”.
Portanto, o Batismo não nos limpa dos sofrimentos que haveremos de sofrer nesta vida, nem tampouco, conforme observa o Catecismo (Cat. Rom., p. II, c. II, §47), nos restitiu o dom de integridade (dom preternatural) em que se achava Adão em seu estado de justiça original. Eis as seguintes razões:
a) Porque Cristo quis tolerar: Cristo desde o instante de sua conceição esteve sujeito a toda condição que o homem encontrava e dela não se despojou a ponto de sofrer os tormentos da Paixão e da morte para que por meio dela fossemos remidos. Portanto conclui o Catecismo: “Não é, pois de admirar que os fiéis, não obstante a justificação pela graça do Batismo, continuem num corpo fraco e mortal; pois terão de sofrer muitos trabalhos por amor a Cristo, de passar pela morte e de ressurgir para uma vida nova, antes de serem dignos, afinal, de desfrutar com Cristo a eterna bem-aventurança (Cat. Rom., p. II, c. II, §47)".
b) Porque nos dão ocasiões de virtude: Todos os sofrimentos servem como de sementeira de virtudes, donde por meio deles colheremos os maiores frutos e lição para a nossa vida, conforme ensina o Catecismo: “Realmente, levando com paciência os sofrimentos da vida; submetendo, com o auxílio de Deus, nossos baixos instintos ao império da razão, podemos seguramente confiar que, se houvermos combatido o bom combate, consumado a carreira, conservando a fé, como fez o Apóstolo (cf. 2Tm 4, 7ss): 'Nosso Senhor, que é juiz, dar-nos-á naquele dia da retribuição a coroa da justiça, que também nos está preparada' (Cat. Rom., p. II, c. II, §47)”.
c) Porque excluem nos neófitos motivos inconfessáveis: Se o Batismo conferisse bens para o corpo, muitos procurariam não pela vantagem da vida futura, e sim somente a vantagem na vida presente: “O Cristão não deve ter na mente os bens falsos e incertos que aparecem aos olhos, senão os eternos e verdadeiros, que não se podem ver (cf. 2Cor 4, 18, apud. Cat. Rom, p. II, c. II, §47)”.
d) Porque o cristão é consolado nos sofrimentos: Ao mesmo tempo que encontramos a dor nesta vida, encontramos a alegria pelas consolações que Deus nos dá, a ponto de dar-nos alegria de tomar a cruz aos ombros, e seguir o Divino Chefe.
Portanto, conclui o Catecismo: “uns irão receber de Nosso Senhor a coroa da virgindade (cf. Ap. 14, 4), outros, a láurea de mestres e pregadores (cf. Dn 12, 3), outros, a palma do martírio (Ap 6, 9; 7, 13-17), outros enfim, a remuneração que corresponde às suas virtudes (ex: a todos os fiéis que cumprirem conforme o dever de estado, seja na famíia, profissão, etc). Contudo, nenhum de nós seria agraçciado com tais honras e distinções, se antes não nos adestrássemos na arena das tribulações da vida, e não saíssemos vencedores no campo de batalha (Cat. Rom, p. II, c. II, §48)”.





LAUS DEO MARIAEQUE!
Eduardo Gomes

A pessoa de Jesus Cristo

“E em Jesus Cristo, seu único Filho e Nosso Senhor (Símbolo dos Apóstolos)”

Sobre a Pessoa de Jesus Cristo, o Depósito Sagrado (Sagrada Escritura e Tradição) contido resumidamente nos símbolo dos apóstolos e explanados tanto no Catecismo quanto no Magistério da Igreja, nos ensina que Jesus Cristo é o Filho Único de Deus e Nosso Senhor.
Conforme explicação contida especialmente no Símbolo Niceno-Constantinopolitano (também no Símbolo de Santo Atanásio ou “Quicumque”), há em Jesus Cristo dois nascimentos:
- O nascimento desde toda a eternidade: “Em um só Senhor Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos...”.
- O nascimento no tempo: “E encarnou por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, se fez homem”.
O Catecismo e o Símbolo mencionam somente esses dois nascimentos, pois justamente sustenta os dois mistérios mais profundos da nossa fé, que é a crença na Santíssima Trindade e na Encarnação do Verbo de Deus no tempo. Em Jesus Cristo também há um terceiro nascimento, que acontece em nós, na qual ao crermos firmemente em suas palavras, Ele nasce espiritualmente em nós (ver explicação Pe. Garrigou-Lagrange O. P. Os três nascimentos do verbo. Contido em:
http://ascese-noturna.blogspot.com/2008/12/os-trs-nascimentos-do-verbo-pe-reginald.html. Postado em 25/12/2008 às 7:21hs).
Sobre a filiação de Nosso Senhor, o Catecismo nos ensina a observar três considerações sobre Ele:
1. Filho único de Deus: A Sagrada Escritura está cheia de passagens na qual nos ensina a crer firmemente que Jesus Cristo é o Filho Único de Deus e que se não crermos, não há como Ele permanecer em nós e nós Nele (cf. 1Jo 4, 15). Assim também, o próprio Cristo havia perguntado aos seus Apóstolos “quem sou eu? (cf. Mt 16, 15)” e em seguida confirmou o testemunho de Pedro que havia dito ser “o Cristo, Filho de Deus vivo! (Mt 16, 16)": “Não foi a carne e nem o sangue que revelou isto, mas meu Pai que está nos céus (Mt 16, 17)”. Assim Jesus Cristo é:
a) De igual natureza com as outras pessoas: Há muitos trechos que a Sagrada Escritura nos ensina, mas nenhum é mais claro como o Prólogo do Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (cf. Jo 1, 1)”. Assim conclui o Catecismo: “... confessamos que é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, perfeitamente igual às duas outras Pessoas Divinas. Nenhuma desigualdade ou diferença pode haver, ou imaginar-se nas três Pessoas divinas, porque em todas elas reconhecemos a existência de uma só natureza, de uma só vontade, de um só poder (Cat. Rom., p. I, c. III, §8)”.
b) Gerado desde toda a eternidade: Sobre este ponto, o Catecismo nos adverte que “não nos ponhamos a imaginar que em Sua geração exista algo de terreno ou mortal (Cat. Rom., p. I, c. III, §8)”. Esse é um artigo de fé, um mistério na qual Cristo revelou ao falar de si mesmo: “O ato pelo qual o Pai gera o Filho desde toda a eternidade, não podemos absolutamente perceber com a inteligência, e muito menos compeênde-lo de maneira adequada. Devemos no entanto, acredita-lo com firmeza, e adora-lo com a maior devoção de nossa alma (op. cit., §8)". Assim define o símbolo Niceno-constantinopolitano: “...Gerado, não criado...”.
c) Consubstancial ao Pai: Por ser gerado desde toda a eternidade conforme exposto anteriormente, resta-nos dizer que a fé nos ensina que “o Filho tem a mesma natureza, o mesmo poder, a mesma sabedoria que o Pai (Cat. Rom., p. I, c. III, §8)”.


2. Filho do Homem: Ao explicar sobre Jesus como Filho Único de Deus, mostramos que Jesus é Verdadeiro Deus. Mas Cristo por Sua Encarnação é Verdadeiro Homem, pois a Encarnação não foi feita no Pai e nem no Espírito Santo (ainda que tenha sido obra comum das Três Pessoas Divinas e atribuída ao Espírito Santo), senão no Filho somente, que na humanidade fora Filho do Homem, Homem Verdadeiro da mãe, tendo verdadeira carne da mãe, e alma humana racional, juntamente de uma outra natureza, quer dizer, Deus e homem, uma só Pessoa, um só Filho, um só Cristo (cf. Denzinger. Enchiridion Symbolorum, n. 422. Ver também n. 257, 285, 708 e 993).
3. Nosso Criador e nosso Irmão: Por ser Cristo uma Pessoa Divina, não somos mais do que obras de suas mãos, e, portanto Cristo, por sua geração divina, não possui co-herdeiro por ser Ele o Filho Único. Mas por Sua origem humana, Cristo dá a muitos o nome de “irmãos” e trata-o como tais. O Apóstolo demonstra o motivo que Cristo o chamava de irmãos: “Aquele para quem oe por quem todas as coisas existem, desejando conduzir à glória numerosos filhos, deliberou elevar à perfeição, pelo sofrimento, o autor da salvação deles, para que santificador e santificados formem um só todo. Por isso (Jesus) não hesita em chamá-los seus irmãos (Hb 2, 10-11)”. E o mesmo conclui: “Veio em socorro, não dos anjos, e sim da raça de Abraão; e por isso convinha que ele se tornasse em tudo semelhante aos seus irmãos, para ser um pontífice compassivo e fiel no serviço de Deus, capaz de expiar os pecados do povo (Hb 2, 16-17)”. Em outra passagem, o Apóstolo também chamou de “Primogênito entre muitos irmãos (Rm 8, 29)”. Portanto, o Catecismo ensina: “os irmãos são aqueles que pela fé receberam a Cristo Nosso Senhor (cf. Lc 8, 21; Jo 1, 12-13), e por obras de caridade comprovam a fé e professam de boca (Cat. Rom, p. I, c. III, §9)”.





CHRISTUS VINCIT, CHRISTUS REGNAT, CHRISTUS IMPERAT!
LAUS DEO MARIAEQUE!
Eduardo Gomes

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Significação de Cristo

“O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque o Senhor Me ungiu, e Me enviou para pregar aos que são mansos (Is 61, 1)”

Ao ser imposto sobre o Verbo de Deus o nome de Jesus, acrescentou o apelido de “Cristo”, que quer dizer “Ungido”. A expressão serve para designar uma dignidade e um ministério, independente das funções a serem exercidas.

No Antigo Testamento, eram chamados “cristos” os sacerdotes e os reis, que eram ordenados por Deus para que fossem ungidos, em atenção à dignidade de seu ministério.
Os sacerdotes são aqueles que por meio de assíduas preces, recomendam o povo a Deus. São eles que oferecem sacrifícios a Deus, e aplicam pelo povo o poder de sua intercessão, conforme observa as seguintes passagens da Sagrada Escritura, quando Deus diz a Aarão a função que ele e tua família exercerá: “Tu, teus filhos e tua família contigo, levareis a responsabilidade dos pecados cometidos no santuário. Tu e teus filhos contigo, levareis a responsabilidade dos pecados cometidos em vosso sacerdócio (cf. Nm 18, 1. Ver também outras passagens: Sb 18, 20-25; no Novo Testamento, o Apóstolo resume perfeitamente a função dos sacertodes, cf. Hb 5, 1-14)”.
Os reis, porém, está a confiado o governo dos povos. Seu dever primordial é salvaguardar a autoridade das leis, proteger a vida dos inocentes, e punir a audácia dos criminosos.
Ambos os ministérios são uma imagem da majestade de Deus, aqui na Terra. Por isso os que eram eleitos eram ungidos com o óleo santo (cf. 1Sm 10, 1; Ex 30, 30).
Também os profetas eram ungidos ao ser escolhidos para serem mensageiros de Deus, exortavam o povo à regeneração dos costumes, ao revelar os segredos do céu e prever o futuro.

No Novo Testamento, Nosso Salvador foi chamado de Cristo pelo tríplice encargo de profeta, sacerdote e rei. Conforme observa o Catecismo: “Não foi obra dobra de nenhum mortal, mas pela virtude do Pai Celeste. Não foi com uma unção de óleo terrestre, mas de óleo espiritual, quando em Sua Alma santíssima se derramaram a graça, a plenitude e os dons do Espírito Santo, em tal superabundância que nenhuma outra criatura a poderia jamais comportar (Cat. Rom., p. I, c. III, §7)”. Portanto, Cristo foi ungido pelo Espírito Santo:
a) Como sumo profeta: É o que prediz o profeta Isaiás da boa nova que haveria de anunciar: “O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque o Senhor Me ungiu, e Me enviou para pregar aos que são mansos (Is 61, 1)”. Portanto, observa o Catecismo: “Cabe-lhe o nome de Profeta com maior glória e distinção, porquanto não passavam de discípulos Seus todos aqueles que {anteriormente} tiveram a honra desse nome, e que não foram enviados senão para anunciar o Profeta por excelência, que viria salvar todos os homens (Cat. Rom., p. I, c. III, §7)”.
b) Eterno sacerdote: Conforme a exaltação do profeta Davi: “Vós sois sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec (cf. Sl 109, 4)”; e a explicação do Apóstolo: “Assim também Cristo não se atribuiu a si mesmo a glória de ser pontífice. Esta lhe foi dada por aquele que lhe disse: ‘Tu és meu Filho, eu hoje te gerei (Sl 2, 7)’ (cf. Hb 5, 5)”.
c) Rei universal: “Há de reinar eternamente na casa de Jacó, e Seu reino não terá fim (cf. Lc 1, 32)”. Portanto, ensina o Catecismo: “Cristo é Rei, não só como Deus, mas também enquanto Homem, participante da nossa natureza (Cat. Rom., p. I, c. III, §7)”. O reinado de Cristo é espiritual e eterno. Começa na terra e termina no céu. Enquanto o reino de Cristo caminha neste mundo, seu domínio é a Igreja, na qual estão inseridos todos os seus fiéis que professam um só Rei e Senhor e recebem os mesmos sacramentos, independente se são homens bons ou maus. Também seu reinado se estende ao mundo inteiro, porque por sua união hipostática (união de sua natureza divina com a natureza humana), Ele podia comportar de poder, grandeza e dignidade. Portanto, Ele é o Senhor de todas as coisas visíveis e invisíveis (cf. Credo de Nicéia e Constantinopla). Portanto, conclui o Catecismo: “Cristo já começou a dominar, mas só no dia do Juízo é que todas as coisas se curvarão plena e incondicionalmente, à Sua autoridade (Cat. Rom., p. I, c. III, §7)”.





CHRISTUS VINCIT, CHRISTUS REGNAT, CHRISTUS IMPERAT!
LAUS DEO MARIAEQUE!
Eduardo Gomes

Os três nascimentos do Verbo – Pe. Reginald Garrigou-Lagrange O. P.



A síntese da revelação do Verbo encarnado se encontra no prólogo do Evangelho de São João. Nele se trata dos três nascimentos do Verbo, que são celebrados cada ano pelas três Missas da Natividade. Seu nascimento eterno, seu nascimento temporal, segundo a carne em Belém e seu nascimento nas almas.

O nascimento eterno do Verbo está claramente expresso no primeiro e último versículo do Prólogo do Evangelho:

No princípio era o Verbo,
e o Verbo estava em Deus,
e o Verbo era Deus.
.....................................
.....................................
A Deus nada se viu jamais,
Deus unigênito, que está no seio do Pai, este nos deu a conhecer.

Nestas palavras se encontram claramente afirmadas a distinção entre o Verbo, Filho de Deus, e o Pai, e também a divindade do Verbo, consubstancial ao Pai.
A distinção das duas pessoas divinas aparece no fato de dizer:
o Verbo estava em Deus (Verbum erat apud Deum). Nada está acerca de si mesmo, nem em si mesmo. E se se duvidasse que a expressão o Verbo designa a uma pessoa, a dúvida desaparecerá pelo versículo 18, no final do Prólogo: A Deus nada se viu jamais; Deus unigênito que está no seio do Pai, este nos deu a conhecer. É claro, por todo o prólogo, que o Filho unigênito é o Verbo de Deus encarnado; e a expressão que está no seio do Pai explica e precisa a do versículo primeiro: o Verbo estava em Deus. É evidente também que Filho unigênito não é o nome de um atributo divino, senão o nome de uma pessoa, como o do Pai. As pessoas são realmente distintas: o Pai não é o Filho, pois o que gera não é o que foi gerado; nada se gera a si mesmo.
Pelo contrário, não se pode dizer: Deus não é sua inteligência, sua sabedoria, seu amor; é, na realidade, sua Inteligência, a mesma Sabedoria, o Amor mesmo; estes atributos essenciais se identificam com sua Essência. O Pai não é o Filho; entre eles há uma oposição de relação, oposição que não existe entre cada um deles e a essência divina.
E não é menos evidente, pelo prólogo, que o Verbo é consubstancial ao Pai, pois disse: E o Verbo era Deus. No grego, o Verbo é claramente o sujeito desta proposição, como da frase que procede e da que segue. E é evidente também que a palavra de Deus está tomada no mesmo sentido pleno que na proposição precedente: o Verbo estava em Deus, e que na seguinte: Ele estava ao princípio em Deus.
Ademais, os versículos seguintes mostram que o Verbo é, junto com o Pai, Criador, autor da vida natural e da vida sobrenatural: Todas as coisas foram criadas por Ele, e sem Ele não se faz nada de quanto há sido feito. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. A luz ilumina nas trevas, mas as trevas não a acolheram.
Estas últimas palavras olham sobre todo a luz sobrenatural necessária para crer as verdades da fé imprescindíveis para a salvação.
O primeiro e o último versículo do prólogo nos fazem ver, assim, o profundo sentido das palavras do Salmo: “A mim me disse o Senhor: tu és meu filho. Eu te gerei hoje (Sl 2, 7)”, e as do Salmo 109: “Disse o Senhor a meu Senhor: senta-te a minha direita...Em meio dos resplendores da santidade, de minhas entranhas te gerei, antes de existir a aurora (Sl 109, 1-3)”. Também compreendemos melhor o que queria dizer o Espírito Santo para inspirar o autor do livro da Sabedoria: "A Sabedoria é como uma exalação da virtude de Deus, ou como uma pura emanação da glória de Deus onipotente;... é o resplendor da luz eterna,e um espelho sem mancha da majestade de Deus, e uma imagem de sua bondade (Sb 7, 25-27)”.
Não menos claramente nos fala o prólogo do nascimento temporal do Verbo no versículo 14: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e temos visto sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

Este nascimento temporal, segundo a carne, é o que foi anunciado pelo profeta Miquéias: “E tu, ó Belém Efrata, pequena para ser contada entre as milhares de Judá, de ti sairá quem imperará em Israel, cujas origens remontam os tempos antigos, aos dias do longíquo passado... Seu prestígio será exaltado até os confins da terra (cf. Mq 5, 1 e 3)”.
É a realização da profecia de Isaiás: “pois há nascido um menino entre nós, e nos foi dado um filho, o qual Lea sobre seus ombros o principado, e terá por nome o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da paz, cujo reino não terá fim (Is 9, 5-6)”.
O prólogo nos fala finalmente do nascimento espiritual do Verbo, vivendo na Igreja que é seu Corpo Místico, nas almas de boa vontade: “Veio aos seus, mas os seus não o receberam. Mas a quantos que receberam deu-lhe o poder de vir a ser filho de Deus, a aquele que crêem em seu nome; que não de sangue, nem da vontade carnal, nem da vontade do varão senão de Deus são nascidos (Is 11 e ss.)”.
Lhes deu o poder ser filhos de Deus por adoção, como É o Filho de Deus por natureza. Nossa filiação é uma imagem da sua, tal como precisa no versículo 16: Pois de plenitude recebemos todos graça sobre graça. Porque a Lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade, veio por Jesus Cristo.
O mesmo Jesus disse: “Se alguém me ama,guardará minha palavra, e meu Pai lhe amará, e veremos a ele e nele faremos morada (Jo 14, 23)”. Também disse: “Se me amais, guardareis meus mandamentos; e eu rogarei ao Pai, e os dará outro Advogado, que estará convosco para sempre (Jo 14, 16)”.
O Verbo, Filho de Deus, habita, com o Pai e o Espírito Santo, em todas as almas da terra, em estado de graça, do purgatório e do céu, em todos os justos. Enquanto a sua santa humanidade, esta não habita na alma justa,mas exerce sobre ela uma influência constante, pois é o instrumento sempre unido a Divindade para comunicarmos todas as graças sacramentais ou extra-sacramentais que Jesus mereceu durante sua vida terrena e, sobretudo, na Cruz (cf. Santo Tomás. Sum. Theol., III, q. 43, a. 2; q. 48, a. 6; q. 62, a. 4). Desde logo, se pode falar de um nascimento espiritual do Verbo nas almas, ou de uma vinda silenciosa do Verbo nas almas, como foi aos pastores de Belém; é esta vinda silenciosa a que honra uma das três Missas da Natividade. Também neste sentido São Paulo escreve: “Quem os gerou em Cristo pelo Evangelho foi eu (cf. 1Cor 4, 15)" para que incorporados a Ele, para que estejais Nele e Ele em vós.
Nunca poderemos agradecer suficientemente ao Senhor a realização do mistério da Encarnação Redentora. Ademais, quando entramos numa Igreja, pedimos uma graça espiritual ou temporal para nós para os nossos e, às vezes, agradecemos ao Senhor tal ou qual benefício. Mas deixemos de agradecer o benefício dos benefícios, aquele que, desde a queda, é a fonte de todos os demais, o da vinda do Salvador. E como disse São Paulo: “Tudo quanto fazeis por palavra ou de obra, fazendo tudo no nome do Senhor Jesus, dando graças a Deus Pai por Ele (cf. Col 3, 17)”, por todos os benefícios que temos recebido e que recebemos cotidianamente por seu Filho.
Ipsi gloria in saecula.
Essas páginas tem por fim convidar as almas a contemplação do mistério de Cristo, quem há querido converter-se, na Eucaristia, nosso alimento espiritual.
Seria difícil expressar melhor esta contemplação que o que faz a grande doxologia, o Gloria, que as vezes se recita mecanicamente na Missa, mas que pela plenitude do sentido de suas palavras arrebata as almas mais contemplativas. No Líber Pontificalis (Ed. Duchesne, I, 129) se diz que o Papa Telesforo ordenou a princípios do século II (128-129) que o Gloria in excelsis fosse recitado no dia da Natividade de Cristo. Quando Cristo inspirava ao que compôs, previa que seria cantado na Missa durante séculos e admiraria aos grandes crentes.
Contemplemos com freqüência o Glória o imenso amor de Deus por nós. Deus nos fala, é preciso responder-lhe. Recordemos, como disse São João da Cruz, que na tarde de nossa vida seremos julgados no amor.



Reginald Garrigou-Lagrange O. P. El Salvador y su amor por nosotros. Ed. Rialp, Madrid, 1977 – col. Patmos, Espiritualidade, p. 514-521

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O Nome de Jesus

“Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus (Lc I, 31)”

O nome Jesus significa “Salvador”, e a imposição deste nome não foi por vontade dos homens senão por vontade de Deus. Adverte Santo Tomás I (Sum. Theol. 3ª p., q. XXXVII, a. 2) que o nome de cada um dos homens se impõem sempre por razão de alguma propriedade daquele a quem se impõe, já pelo tempo, como se impõem os nomes dos santos aos que nascem nas fastas dedicadas a eles, já pelo parentesco. Mas o nome que Deus impõe a alguns sempre significam algum dom gratuito concedido por Deus, como se disse a Abraão: “Serás chamado Abraão, porque te pus por pai de muitas gentes (Gn XVII, 5)”, e também a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja (Mt XVI, 18)”.
Conforme a Sagrada Escritura, o nome Jesus já era atestado no Antigo Testamento. Assim se chamava o filho de Nun, que sucedeu a Moisés e que tinha a missão de levar o povo à Terra Prometida (Dt XXXIV, 9. Josué e Jesus são homônimos). Assim também se chamava o sumo-sacerdote, filho de Josedec (cf. Ag. I, 1). No Novo Testamento, o nome de Jesus foi designado por Deus a dar àquele que viria resgatar o gênero humano do pecado. Assim o Anjo anunciou a Virgem Maria: “Eis que conceberás em teu seio,e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus (Lc I, 31)”; e depois anunciou a José, esposo da Virgem onde indica porque deveria chamar-Se assim: “José, filho de Davi, não tenhas receio de levar para tua casa Maria, tua esposa; pois o que nela foi concebido, obra é do Espírito Santo. Portanto, ela há de dar à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele há de remir Seu povo de seus pecados (Mt I, 20-21)”.
A justeza desse nome, conforme observa o Catecismo (p. I, c. III, §6) está pelo fato de ele não ter sido apenas o Salvador de um povo singular, mas a todos os homens de todas as épocas, livrando-o também não da fome ou da opressão, mas do pecado em que todos estavam merecidamente condenados, dando-nos assim o direito à herança do Reino dos céus.
Santo Tomás enumera as seguintes utilidades do Nome de Jesus (De Humanitate Christi, c. XXVI):
- Para o perdão dos pecados: Assim como observa São João em sua Epístola: “Escrevo a vós, filhinhos, porque são perdoados vossos pecados por seu nome (cf. 1Jo II, 12)”;
- Para a graça da saúde: “Óleo derramado é seu nome. Porque o óleo é alívio da dor (cf. Cant. I, 2)”. Assim também é o nome de Jesus, que conforme observa Pedro de Ravena: “Este é o nome que deu vista aos cegos, ouvido aos surdos, passo aos coxos, palavra aos mudos, vida aos mortos”.
- Para a vitória nas tentações: É o que atesta nos Evangelhos: “Lançaram demônios em meu nome (cf. Mc XVI, 17)”; e Pedro de Ravena conclui: “A virtude deste nome, de Jesus, expulsou dos possessos toda a potestade do diabo”.
- Para a confiança: Assim o disse àqueles que pedirem ao Pai em seu nome, o daria (cf. Jo X, 17). Santo Agostinho a propósito dessa passagem, diz: “Em meu nome, que é Cristo Jesus. Cristo significa Rei, Jesus significa Salvador; e tudo o que pedimos por ele, o pedimos em nome do Salvador, e ele é o Salvador, não somente quando faz o que pedimos, senão também quando não faz; porque quando se vê que é contrário a salvação, se mostra salvador não fazendo. Pois o médico conhece que pede o enfermo, quer em favor de sua própria saúde, quer contra ela; por conseguinte, não faz a vontade contraria do que pede, afim de sara-lo”.
Portanto, conforme observa o Catecismo, “todos os outros nomes que, segundo as profecias (cf. ex: - Is VII, 14; VIII, 8; IX, 6; - Jr XXIII, 6), deviam ser dados ao Filho de Deus, estão já incluídos nesse único nome de “Jesus”. Cada um deles exprime aspectos parciais da salvação que nos devia trazer; ao passo que o nome de Jesus abrange, por si só, o resgate do gênero humano, em toda a sua extensão e eficácia (Cat. Rom., p. I, c. III, §6)”.





LAUS DEO MARIAEQUE!
Eduardo Gomes

domingo, 21 de dezembro de 2008

Catequese e Liturgia - Quarto Domingo do Advento




Evangelho: Lc III, 1-20


O Batismo de João e o Batismo instituído por Jesus Cristo

“Ele percorria toda a região do Jordão, pregando o Batismo de penitência para remissão dos pecados... (Lc III, 3)”

O Batismo de João Batista conforme nos atesta as Escrituras, era apenas um sinal de conversão daqueles que prometiam a emenda de seus costumes, para manifestar o perdão de seus pecados que deviam alcançar por sua contrição. Para entender a natureza do batismo de João e do Batismo instituído por Cristo, se dividirá a explicação em duas partes: Os Sacramentos em geral e o Batismo.


- Ponto I: Natureza dos Sacramentos (Cat.. Rom., p. II, c. I)
I.I – O termo Sacramento
No sentido da própria palavra, a expressão tem um sentido profano, religioso geral e específico (Cat. Rom, p. II, c. I, §2-9):
- No sentido profano: A palavra “sacramento” era empregada em sentido de juramento a algum serviço. Assim, por exemplo, o “compromisso militar” era designado como um sacramento (ou sinal) de um juramento pelo qual os soldados se comprometiam a prestar um serviço de Estado.
- No sentido religioso: Nas Igrejas latinas, os Padres designavam o “sacramento” como coisa sagrada que se oculta ao olhar; o mesmo sentido atribui também as Igrejas Orientais, onde ao invés de expressar a palavra “sacramento”, expressa a palavra “mistério”. O mesmo que se diga também em algumas passagens da Sagrada Escritura onde a expressão é entendida no mesmo sentido: “A fim de nos revelar o mistério de Sua vontade (cf. Ef I, 9. Em latim: sacramentum voluntatis tuae)”; “Sublime é o mistério da piedade (cf. 1Tim III, 16. Em latim: pietatis sacramentum)”; “Ele ignoravam os desígnios de Deus (cf. Sab II, 22. Em latim: Sacramenta Dei)”.
- Sentido religioso específico: O sentido aqui é referente ao Sacramento da Nova Lei. Os Doutores Latinos assentavam que havia propriedade em chama-rse “Sacramento” certos sinais sensíveis, que produzem a graça, ao mesmo tempo que a designam exteriormente, e a tornam quase visível aos olhos.
I.II – Explicação real: A definição do Sacramento mais concreta e precisa se encontra nas palavras de Santo Agostinho: “Sacramento é o sinal de uma coisa sagrada (De Civita Dei, X, 5)”. No sentir do Santo Doutor (De Doctrina Chrstiana, II, 1ss.), sinal é tudo aquilo que, além de atuar por si em nossos sentidos, nos leva também ao conhecimento de outra coisa concomitante, como por exemplo, os vestígios impressos na terra, que facilmente reconhecemos que ali alguém passou, cujas pegadas aparecem (Cat. Rom, p. II, c. I, §4). Este sinal designa um efeito interior, na qual as coisas que manifestam exteriormente, por certa imagem e semelhança, são o Deus que opera interiormente, em nossa alma pelo seu poder invisível (Cat. Rom., p. II, c. I, §5). Os sacramentos são assim, uma prova da bondade divina na qual Deus nos manifesta sua graça por sinais sensíveis aquilo que está invisível.
Portanto, o sacramento não é um sinal natural, pois não é um sinal perceptível por nossa experiência a sua causa, como por exemplo a fumaça no ar que sinaliza que há fogo.; nem tampouco um sinal convencional, que são por sua natureza sinais de invenção e instituição humana, quando por exemplo acenamos a alguém; mas um sinal instituído por Deus, para significarem ou recordarem alguma coisa, como algumas cerimônias do culto mosaico (as purificações legais, o pão ázimo, etc)... e que também tem a força de produzir o que simboliza, tal como os sacramentos da Nova Aliança, na qual seu efeito é a santificação da alma e a causa eficiente de toda a Santidade é a Paixão de Cristo Nosso Senhor (Cat. Rom., p. II, c. I, §6-8).

- Ponto II: O Batismo
“Batismo” é uma palavra grega, que designa ablução, seja sacramental, seja de qualquer espécie. Tomado no sentido sacramental, o Batismo fica definido como sinal de alguma coisa, seja no sentido profano, seja no sentido religioso, como foi explicado. Em sentido religioso, o Batismo é uma coisa sagrada que se oculta ao olhar; e em sentido religioso propriamente específico aos Sacramentos da Nova Lei, o Batismo é um sinal sensível que produz a graça invisível.
Em uma definição melhor e mais precisa, o Batismo é um “Sacramento de regeneração pela palavra na água (Cat. Rom. p. II, c. II, §5)”, na qual declarou Nosso Senhor: “Quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus (cf. Jo III, 5)"; e que São Paulo também diz: “{Cristo} purificou pela ablução da água na palavra (cf. Ef V, 26)”.
Portanto, a diferença entre o Batismo de João e o Batismo que Nosso Senhor instituiu, é que embora o do primeiro expressava o sinal de alguma coisa sagrada na qual aqueles que fossem batizados se firmassem em se converter e fazer penitência, não tinha a força de produzir aquilo que simboliza, como o segundo, cujo o efeito é a santificação da alma em que Cristo, é o Verbo de Deus, e no outro João é apenas Vós que anuncia o Verbo.





LAUS DEO MARIAEQUE!
Eduardo Gomes

domingo, 14 de dezembro de 2008

Catequese e Liturgia - Terceiro Domingo do Advento




Evangelho: Jo I, 19-28


A voz que clama no deserto

A História Sagrada apresenta dois fatos que são o capital de toda ela: A queda e a Redenção do gênero humano. Por estes dois fatos capitais, surgem dois caminhos diferentes: a salvação eterna e a perdição eterna do gênero humano. Por estes dois fatos também toda a história sagrada se desenvolverá gradativamente. Assim ela está dividida em duas partes, que compreende o Antigo Testamento, onde fala sobre a queda de Adão e a desgraça que cairia todo o gênero humano, além das promessas que Deus dá aos homens (aqui o povo eleito) quando vem a seu auxílio; e no Novo Testamento temos a consumação de todas as promessas que foram preditas no Antigo Testamento sob diversas formas, seja por profecias, seja por imagens e figuras, como também, a recompensa definitiva em que todos os homens (vivos e mortos) receberão pelo bem e pelo mal que praticou, no último dia deste mundo.
Neste tempo litúrgico do Advento, somos convidados para a espera do Senhor que há de vir ao mundo para a nossa salvação, cujo remédio os homens em sua totalidade não podia reparar, senão aquele que havia de vir e que é o Filho Único de Deus, nascido desde toda a eternidade na natureza infinita de Deus Pai, se fez homem no tempo (Cat. Rom. p. I, c. III, §3).
O Evangelho de hoje apresenta João Batista, o último dos profetas, o percussor de Jesus. Para entender quem foi João Batista e qual a sua missão, serão expostas as promessas da redenção contidas no 2° Artigo da fé (Cat. Rom., p. I, c. III, §4) e o motivo pelo qual João Batista é a voz que clama no deserto.

- A promessa da Redenção:
Na Sagrada Escritura, a promessa da redenção sempre é anunciada desde o instante da queda do gênero até a preparação do caminho para a recepção do Redentor que se deu em João Batista, que é visto aqui como elo de ligação da Antiga Aliança com a Nova e Eterna Aliança, assim como a ponte que liga dois pontos que estão entre dois abismos. Conforme o Catecismo (p. I, c. III, §4), no Antigo Testamento são apresentados quatro fatos são importantes, na qual Deus revela a promessa da vinda do Redentor:
a) No paraíso: Logo que o gênero humano caiu em queda, anunciou a derrota que a serpente maligna (o demônio) sofreria a derrota: “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua raça e a tua descendência. Esmagará ela a tua cabeça, e tu amarrarás traições ao seu calcanhar (cf. Gn III, 15)”.
b) A Abraão: Deus fez grandes promessas a Abrão quando o chamou: “Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos... (cf. Gn XII, 2)”; e fez com que seu nome mudasse para Abraão, que significa Pai de uma multidão: “De agora em diante não te chamarás Abrão, e sim Abraão, porque farei de ti o pai de uma multidão de povos (Gn XV, 5)”; e que de sua nação “todos os povos da terra serão benditos nele (Gn XVIII, 18)”. Nestas passagens, Deus dava cada vez mais indicações deste mistério, já que por meio da nação de Abraão todos os povos seriam benditos nele. Ficou mais explícito ainda quando ia imolar Isaac, seu filho único, por obediência a Deus, mas que logo depois quando foi posto a prova, Deus o proveu um cordeiro imolado preso pelo chifre entre os espinhos (cf. Gn XXII, 13) para que fosse imolado no lugar de Isaac, onde podemos concluir que o cordeiro oferecido em holocausto no monte em que se chamaria Javé-Yuré, que significa, "Deus proverá" (cf. Gn XXII, 14), é a perfeita figura de Jesus Cristo, Filho Único de Deus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo na qual Deus proveria, conforme confirma o Catecismo: “Destas palavras, era fácil reconhecer que, da posteridade de Abraão nasceria Aquele que havia de livrar todos os homens da horrenda tirania de Satanás, e trazer-lhes a salvação. Ora, {o Libertador prometido} devia ser {também} Filho de Deus, ainda que fosse, como homem, gerado do sangue de Abraão (Cat. Rom., p. I, c. III, §4, i. b)” .
c) A Jacó:
Deus confirmou com Jacó, neto de Abraão, a mesma aliança ao recordar a ele as promessas: “Dar-te-ei, a tia tua posteridade, a terra em que estás dormindo. E tua geração será como o pó da terra. Hás de estender-te para o Oriente e para o Ocidente, para o norte e para o meio-dia. Em ti e na tua geração serão abençoadas todas as tribos da terra (cf. Gn XXVIII, 13-14)”.
d) Aos profetas em geral: Deus revelou também aos Profetas, o nascimento do Filho de Deus, fazendo com que fosse clarificando aos poucos, apresentando sempre em forma de figuras e enigmas. Poderão facilmente ser encontrados nas profecias de Isaiás, Jeremias, Daniel e entre outros.

- João Batista, a voz que clama no deserto:
Conforme observado antes, João Batista foi o último dos profetas e o percussor de Jesus. Os outros profetas ao tratar da vinda do Redentor, falavam em forma de figuras e enigmas das promessas que viriam a acontecer quando viesse o prometido, enquanto o Batista, sendo elo entre a Antiga e a Nova Aliança, veio como a “voz que clama no deserto” e “preparar o caminho do Senhor (cf. Jo I, 23)”, tal como a alguém que enfeita no caminho o tapete por onde passará o Rei. Assim também, João Batista chama a si mesmo de “voz”, pois tal expressão é por sua origem posterior a palavra interior e anterior no conhecimento (ex: A voz é ligação entre Cristo e a alma). Conforme observa Santo Tomás (in Joan., I), existem quatro motivos em que o Batista era a voz que clamava no deserto: Para manifestar a Cristo, dirigir o clamor para com aqueles que estavam longe de Deus, para os que estavam surdos e para ser mais digno de dar testemunho de Cristo.

- Frutos do testemunho de João Batista:
O Evangelho de hoje ressalta a humildade do Batista: “Eu não sou o Cristo (cf. Jo I, 20)” – confessou –... e em seguida protestou dizendo não ser digno de desatar as correias das sandálias do Redentor (cf. Jo I, 27). Essa virtude de João Batista deve ser a mesma para nós, sobretudo neste tempo que vamos nos preparar para a recepção do Menino Jesus em nossos corações, que veio a este mundo de uma maneira tão desprezada. Que seja também para a segunda vinda gloriosa de Nosso Senhor que virá a dar recompensa a cada um pelo bem o pelo mal que praticou.





LAUS DEO MARIAEQUE!
Eduardo Gomes